O custo do tempo livre no Brasil

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Desfrutar do tempo livre não custa o mesmo em toda a América Latina. Ir a um show, cinema, partida de futebol ou, simplesmente, conhecer um restaurante novo tem custos distintos. E, no Brasil, vai muito além do dinheiro. 

Para entender essa diferença, analisamos 16 mercados da América Latina, sob os mesmos critérios e atividades de lazer, então calculamos quanto custa essa rotina de forma anual em cada país com relação ao tempo livre potencial disponível já desconsiderando as horas de trabalho e sono. 

Especificamente no Brasil, a Betsson entrevistou mil pessoas para entender quanto tempo realmente sobra ao brasileiro, qual a percepção de lazer e quais são as atividades que um povo tão diverso mais gosta de praticar.

Quanto custa aproveitar o tempo livre na América Latina?

Para conseguir comparar países com realidades tão distintas, usamos o mesmo grupo de atividades de lazer e calculamos o custo em relação ao tempo livre potencial disponível. 

Para isso, tomamos como referência esse conjunto de atividades:

  • 12 refeições em restaurantes;
  • 24 cervejas em bares ou restaurantes;
  • 12 mensalidades de academia;
  • 12 horas de aluguel de quadra de tênis;
  • 12 ingressos de cinema;
  • 6 ingressos para shows;
  • 6 ingressos para eventos esportivos.

Assim, construímos um índice comum para toda a região. Ele considera a média dos 16 países analisados como 100. Assim, valores acima de 100 representam um custo relativo de lazer maior, enquanto valores abaixo de 100 indicam um custo relativo menor.

Índice do custo de tempo livre na América Latina

Brasil tem o segundo lazer mais caro da América Latina

O Brasil tem um dos lazeres mais caros da América Latina. Com um índice de 117, está 17% acima da média do continente e ocupa a 2ª posição dos mais custosos. Em primeiro lugar está a Costa Rica.

Essa posição fica mais evidente ao analisarmos todos os dados juntos. Enquanto o lazer em solo brasileiro fica em torno de 1.489,34 USD por ano, o tempo livre potencial anual fica em torno de 3.900 horas descontando o tempo de trabalho e de sono. Dos outros 15 países analisados, apenas 5 têm mais tempo livre potencial:: Argentina, Uruguai, Panamá, Chile e Nicarágua. 

Esse cálculo permite comparar os países com base em um mesmo critério, embora não considere outras responsabilidades do dia a dia que também reduzem o tempo realmente disponível para o lazer. Por isso, para complementar nossa análise, fomos diretamente aos brasileiros para entender como eles percebem seu próprio tempo livre, o que os impede de aproveitá-lo e como escolhem passar esses momentos.

Mas o número de horas disponíveis não conta toda a história. A pesquisa mostra que, mesmo quando existe algum tempo livre no calendário, muitos brasileiros não sentem que conseguem aproveitá-lo plenamente.

Quanto tempo livre os brasileiros realmente têm?

Ter algumas horas disponíveis não significa necessariamente sentir que existe tempo suficiente para descansar, se divertir ou fazer aquilo que se gosta. No Brasil, quase 3 em cada 4 brasileiros sentem que não têm tempo livre suficiente. Desse total, 55,7% dizem ter algum tempo, mas às vezes sentem falta, enquanto 16,4% afirmam que normalmente não têm tempo suficiente. Outros 0,9% dizem não ter nenhum tempo livre.

Nos dias de trabalho ou estudo, o tempo disponível também é limitado: 29,4% afirmam ter entre 1 e 2 horas livres, enquanto 28,3% têm entre 2 e 3 horas. Apenas 16,6% dizem ter mais de quatro horas livres nesses dias. Isso acontece por conta do tempo destinado a deslocamentos e da preparação para sair de casa e ir ao trabalho.

Naturalmente, quando não precisam trabalhar ou estudar, o cenário muda: 49,7% afirmam ter mais de quatro horas de tempo livre. Isso sugere que o problema não está apenas na quantidade de horas existentes, mas também em como a rotina afeta a energia e a disposição para aproveitá-las.

Quanto tempo livre os brasileiros têm

Cansaço é o principal motivo para os brasileiros abrirem mão do lazer

Se o preço fosse o principal obstáculo, seria de esperar que o custo aparecesse no topo das razões para desistir de um programa. No Brasil, porém, a resposta mais frequente foi outra: o cansaço é o principal motivo que faz brasileiros desistirem de um programa de lazer.

Entre os entrevistados, 22,5% afirmaram que estavam cansados demais para aproveitar o programa. O preço aparece em segundo lugar, citado por 16%, seguido pela necessidade de trabalhar ou estudar, com 14,3%. A falta de tempo aparece como motivo para 11,6% dos entrevistados.

O resultado revela uma dimensão diferente do custo do lazer: mesmo quando existe dinheiro e tempo para fazer alguma coisa, pode faltar energia para realmente aproveitá-la.

Como os brasileiros gastam o tempo livre

Como os brasileiros passam o tempo livre: telas, família e no conforto do lar

Quando têm tempo livre, os brasileiros preferem atividades que podem ser realizadas em casa ou por meio de telas. Assistir a TV, filmes, séries ou streaming é a atividade de lazer mais popular, citada por 79,1% dos entrevistados.

As redes sociais e a internet aparecem logo depois, com 56,8%. Em seguida estão passar tempo com família, parceiro ou amigos (39%), jogar videogame (27,3%) e praticar esportes ou atividades físicas (18,5%).

Atividades mais tradicionais de lazer aparecem com menor frequência: 12% citam a leitura e 11,6% caminhadas ou atividades ao ar livre. Já shows e eventos esportivos são mencionados por apenas 1% e 0,9%, respectivamente.

O padrão também aparece quando os brasileiros são perguntados sobre com quem passam a maior parte do tempo livre. 37,8% apontam o parceiro e 29% a família, enquanto 19% costumam ficar sozinhos. 

Apenas 1,4%, apontam os amigos como a principal companhia. 

O retrato é claro: para grande parte dos brasileiros, o lazer acontece principalmente em casa, diante de uma tela ou ao lado das pessoas mais próximas.

Com quem os brasileiros passam o tempo livre

O custo do FOMO: mais da metade dos brasileiros já comprou um ingresso que não planejava comprar

O FOMO, do inglês fear of missing out, descreve a sensação de estar perdendo algo enquanto todos estão aproveitando. Durante o tempo livre, pode acontecer de um evento começar a parecer mais divertido, prazeroso e importante por acompanhar os conhecidos ou influenciadores postando nas redes sociais.

O tempo livre pode ser limitado, mas isso não impede que o medo de ficar de fora influencie decisões de consumo: mais da metade dos brasileiros já comprou pelo menos uma vez um ingresso para um evento que inicialmente não pretendia assistir.

Para 23,2%, isso aconteceu várias vezes, enquanto 33,6% fizeram isso uma vez. E o principal gatilho para mudar de ideia foi justamente onde grande parte do lazer brasileiro já acontece: as redes sociais.

Entre os entrevistados, 51,1% apontaram as redes sociais como fator que os levou a comprar o ingresso. Saber que amigos ou familiares estariam presentes aparece em segundo lugar, com 37,5%.

Experiências exclusivas ou limitadas também pesam: 28,5% afirmaram que esse fator influenciou a decisão, enquanto 26,4% foram motivados por descontos ou promoções.

O efeito do FOMO vai além da decisão de compra: 6 em cada 10 brasileiros estariam dispostos a pagar mais do que o preço original por um ingresso esgotado.

Entre eles, 30,8% aceitariam pagar até 10% a mais, 20,5% pagariam entre 11% e 25% a mais e 7,1% aceitariam pagar entre 26% e 50% acima do preço original.

Ou seja, quando uma experiência parece estar escapando, o valor que as pessoas atribuem a ela pode mudar rapidamente.

O comportamento muda entre as gerações

A relação entre lazer, redes sociais e FOMO também varia de acordo com a idade: dos 18 aos 44 anos, o comportamento segue parecido; mas, entre os entrevistados de 45 a 54 anos, o número cai para 44,2%, chegando a 34,9% entre aqueles de 55 a 64 anos.

A diferença também aparece na maneira de vivenciar os eventos: 6 em cada 10 jovens adultos ficam mais focados em gravar ou compartilhar um momento do que simplesmente aproveitá-lo. Entre os entrevistados de 55 a 64 anos, esse percentual é de 31,1%.

Os dados mostram como a experiência de lazer pode mudar conforme a geração: enquanto os mais jovens estão mais expostos à lógica de compartilhar e acompanhar o que acontece em tempo real, os grupos mais velhos apresentam uma relação diferente com esse comportamento.

A segunda tela que rouba a experiência dos eventos

Mesmo quando os brasileiros conseguem sair de casa para aproveitar um evento, outra forma de distração puxa a atenção: a segunda tela.

70,3% afirmam usar outro dispositivo pelo menos às vezes enquanto assistem a uma transmissão ao vivo. O celular é usado principalmente para WhatsApp e outros aplicativos de mensagens, mencionados por 69,5% dos entrevistados.

Redes sociais e comentários aparecem em seguida, com 32,1%, enquanto 23,2% usam o dispositivo para consultar informações sobre os participantes e 15,7% para acompanhar estatísticas ou resultados.

Até as apostas aparecem nesse comportamento, citadas por 11,5% dos entrevistados.

Mas existe um custo para essa atenção dividida: 66,8% dos brasileiros afirmam já ter perdido um momento importante de um evento porque estavam olhando outro dispositivo.

A experiência do lazer, portanto, pode ser interrompida pela mesma tecnologia que ajuda a acompanhar, comentar e compartilhar o que está acontecendo.

Pesquisa

Como complemento ao índice, foi realizada uma pesquisa com 1.000 pessoas no Brasil para analisar como elas percebem e utilizam seu tempo livre, incluindo suas principais atividades de lazer, as barreiras que as fazem desistir de programas, seus gastos, o FOMO relacionado a eventos e seus hábitos de uso de uma segunda tela.